HISTÓRIA & CULTURA

Serra Acima,
Serra Abaixo

Caminhos Históricos que ligam
Cuiabá à Chapada de Guimarães

por Noam Salzstein



“...sem memória, não há amor nem resistência.
A memória é um direito...”

Godard, em Elegia ao Amor.

Primeiros Habitantes

rotas-pre-colombianasA grande incidência de sítios arqueológicos no encontro do planalto com a planície reforça a tese de que já havia vários caminhos pré-colombianos e que os novos colonizadores, na maioria dos casos, apenas os adequaram para a passagem de tropas de burros, gado, cavalos, carros de boi, etc. É de se notar que um dos mais antigos sítios arqueológicos das Américas está a menos de 100km da Chapada. Trata-se do sítio conhecido como Santa Elina, com datações confirmadas superiores a 30.000 anos. Algumas das pinturas rupestres encontradas possuem linguagem muito semelhante às da Chapada e remetem a povos caçadores e coletores que perambulavam em toda a região. Provavelmente foram aos poucos sendo substituídos por culturas mais sedentárias, ceramistas, com traços agricultores e rituais mais elaborados, como os Boróro. rotas-pre-colombianas

Segundo alguns arqueólogos, há cerca de 10.000 anos a Amazônia já estava amplamente colonizada, propiciando correntes migratórias para nossa região. Se na Amazônia os principais caminhos eram fluviais, ao sair da densa floresta e ocupar o cerrado essas culturas desenvolveram mais caminhos terrestres. Isso pode ter acontecido no final da última glaciação, há apenas 15.000 anos, quando o clima voltou a ser mais úmido, quente e a vegetação mais densa.

O Início da Ocupação

bandeirantes bandeirantesQuando, já no final do século XVII, os primeiros bandeirantes chegaram à região em busca de índios para prear e de minerais preciosos, depararam-se com o “gentios” Boróro espalhados em diversas aldeias. Entre elas, os Coxiponés - de Cujibo (rio dos mutuns) - povo que habitava o que viria a ser a Baixada Cuiabana, unidade geográfica e cultural aos pés da Chapada dos Guimarães. A estrada, então, era o Rio Cuiabá. Deixando o rio, subiram a serra por volta de 1677, passando pelo morro Bokodoriri (tatu canastra em Boróro), que denominaram São Jerônimo, invocando este protetor contra os raios e tempestades que comumente assolavam a região. É de se notar que este santo é referido em sua biografia como intelectual, tradutor da bíblia, etc., sendo muito provavelmente revestido de tal qualidade após o sincretismo com Xangô, orixá dos raios, trovões e fogo.

Descoberto farto ouro no início do século XVIII, fundou-se Cuiabá na barra do ribeirão Coxipó-Mirim, onde havia ouro de aluvião. Rapidamente espalharam-se arraiais mineradores em todo o pé da serra, sendo o primeiro deles o da Forquilha, já em 1719. Esse arraial ficava a poucos metros da confluência entre o Ribeirão Mutuca e o Coxipó-Mirim. Coxipozinho ainda, no alto da serra, com nascentes no Vale da Benção, o ribeirão e seus afluentes funcionaram como primeiro eixo de ocupação bandeirante e cordão umbilical ligando o planalto à planície.

Quase simultaneamente à fundação de Cuiabá, o bandeirante Antônio de Almeida Lara subiu a serra encontrando uma faixa de terra fértil e água boa e farta, fundando a fazenda Burity Monjolinho. Com mais de 30 escravos e a primeira lavoura de cana e alambique, surgia a vocação da Chapada para produzir e fornecer mantimentos aos garimpeiros, negócio tão lucrativo quanto as próprias lavras.

Como sabemos, os bandeirantes, além de prear índios para escravizá-los, os usavam como guias e intérpretes. Na falta de mulheres brancas, muitas vezes se casavam com índias ou mestiças e alguns dos seus filhos eram legitimados como herdeiros, ostentando sobrenome dos pais. Era uma relação complexa, cheia de dubiedades.

Os Caminhos dos Bandeirantes

bandeirantes bandeirantesCom a febre do ouro a região rapidamente se tornou populosa, Cuiabá foi elevada à condição de Vila Real e o Engenho do Buriti concedido a Almeida Lara como sesmaria. Em seguida, outra sesmaria contígua foi concedida a Lanhas Peixoto, secretário particular do primeiro Capitão General da recém criada Capitania de São Paulo.

O fluxo de gente e mercadorias continuou aumentando, principalmente quando em 1736 foi concluída a abertura do primeiro caminho terrestre ligando a região às Minas de Goyaz e à então recém fundada Vila Boa, hoje Goiás Velho. O caminho seguia para Meia-Ponte (hoje Pirenópolis), daí se bifurcando para chegar ao vale do São Francisco e costa nordestina, e ao novo centro político e econômico da colônia, as Minas Gerais. O ciclo econômico da cana, concentrado na costa nordeste, estava sendo substituído pelo ciclo minerador e a ocupação da Baixada Cuiabana se situa nesse contexto.

Saindo de Cuiabá, já com o eixo de ocupação ao longo do Córrego da Prainha, onde haviam sido descobertas as Lavras do Sutil no atual centro, o caminho para Goiás tinha duas variantes: uma, saindo para o leste, atravessando o Coxipó e subindo a Serra de São Vicente; outro, seguindo para as Lavras do Jacé (provavelmente atual bairro do CPA), subindo para a Chapada e seguindo ao leste pelo topo do planalto, de topografia mais amena.

No entanto, no mesmo período a região sofre um golpe e vê sua população declinar: os irmãos Paes de Barros descobrem ouro no Rio Galera, afluente do Guaporé, muito a oeste. Diversos arraiais são fundados na região, onde estes bandeirantes pela primeira vez tomam contato com a floresta amazônica. Impressionados, denominam a região de ‘Mato Grosso’. De alguma forma, os arraiais do Guaporé acabaram favorecendo Cuiabá, pois a ligação fluvial com Belém nunca atingiu a mesma intensidade da bacia do Prata. Mesmo assim, os bandeirantes já tinham penetrado pelo menos 500km em território hispânico. Eles também haviam destruído diversas missões jesuíticas castelhanas e roubado, além de índios para escravizar, gado, muares e cavalos que usavam para transporte de carga. Assim, percorreram velhos caminhos, abriram novos e estruturaram melhor sua ocupação.

O fluxo volta a aumentar quando a coroa portuguesa resolve aproveitar a penetração paulista, tomando para si uma vasta faixa do território hispânico. Em 1745 o Papa Benedito XIV cria as prelazias de Cuiabá e Goiás, e três anos depois cria-se a Capitania de Mato Grosso. A legitimação jurídica da ocupação portuguesa ocorre em 1750, quando é firmado com a Coroa Espanhola o Tratado de Madrid, que se vale do conceito Uti Possidetis. Isso significava que cada uma das partes ficaria com o território ocupado de fato e tornou a fronteira basicamente uma linha definida pelos rios Paraguai e Guaporé. Portanto, Chapada tornava-se definitivamente uma possessão portuguesa, dando mais segurança a seus habitantes, até pelos investimentos militares da coroa. Os bandeirantes tendiam a não gostar dos portugueses, pelos quais haviam sido expulsos de Minas Gerais na Guerra dos Emboabas no início do século. Consideravam os funcionários da coroa parasitas achacadores, financiavam enormes expedições com capital próprio e preferiam viver num “estado” paralelo, onde eles mesmos detinham o poder.

Os Jesuítas na Chapada

missa-jesuita missa-jesuitaA coroa portuguesa continuou no firme propósito de impor sua autoridade no local e já em 1748 havia sido criada a Capitania do Mato Grosso. No entanto, o primeiro Capitão General Rolim de Moura chega somente em 1751, trazendo em sua comitiva o jesuíta Estevam de Castro. No mesmo ano é fundada, serra acima, a missão jesuítica de Santana, com uma simples capela e imagem desta santa. Segundo Carlos Rosa, a propriedade foi adquirida já com certa estrutura, como algumas construções e pomar, o que colabora para uma ocupação mais intensa já nesse período, refletindo se em maior uso dos caminhos.

Iniciou-se assim um aldeamento com indígenas “amansados” de diversas etnias, inclusive alguns da Chiquitânia, região da atual Bolívia. Assim, mais uma vez aumentava o fluxo serra acima serra abaixo. Note-se que com a criação da capitania, Vila Bela da Santíssima Trindade, às margens do Guaporé, torna-se a primeira capital. Mas a verdade é que Vila Real do Bom Jesus do Cuiabá jamais seria destronada de sua condição de centro político e administrativo da capitania, e Chapada, então denominada pelo povo de Santana da Chapada, mantinha-se em sua órbita.

Neste período, a coroa busca diminuir o intenso poderio da Igreja Católica nos negócios de estado, e em 1759 os jesuítas foram expulsos do Brasil. O ouro praticamente havia findado e a região amargava grande decadência.

O Nome ‘Guimarães’

guimaraes-castelo guimaraes-casteloChapada pouco mudou de condição, mas mudou de nome quando Luis Pinto de Souza Coutinho passa a denominá-la ‘Lugar de Guimarães’. Lugar era, então, a denominação para pequenos povoamentos abaixo da categoria de vila, e Guimarães uma homenagem à homônima vila portuguesa, na verdade importantíssima, uma vez que era a cidade onde governou Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal (à parte a Cidade do Porto, foi praticamente sua primeira capital, ainda no pequeno Condado Portucalense, de onde seu primeiro monarca rumou ao sul para expulsar os mouros e estabelecer a unidade de uma das primeiras nações européias).

Em essência, a determinação régia visava reafirmar o domínio português sobre o vasto território. Boa parte das povoações portuguesas recebiam o nome de santos católicos que invocavam como proteção, mas o mesmo se dava com povoações hispânicas. Portanto, para consolidar sua dominação política e cultural, eram necessários nomes tipicamente portugueses. Atribuído com uma “canetada”, como se diria hoje, o nome nem por isso caiu no gosto popular. O termo “Lugar”, por exemplo, pouco durou senão em documentos oficiais e a Chapada continuou com diferentes denominações. Como hoje se vê, o termo “Chapada” foi o que vingou, pois a planura do topo da serra muito marcava a cultura popular, que entãose referenciava fortemente pela topografia.

A Igreja de Santana

igreja-santana igreja-santanaEm 1772 a modorra é quebrada pela chegada de um dos mais notáveis capitães generais que a capitania teve: Luís de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres. Muito empreendedor, movimentou a região com novos povoamentos, fortificações, etc. Desta forma, em 1778, passou pela Chapada o Juiz de Fora Dr. José Carlos Pereira que, ao ver a antiga capela, a descreve como uma “palhoça na verdade indecentíssima”. Começou assim a materializar-se a atual Igreja de Santana, o maior e mais belo dos legados arquitetônicos locais.

Dr. José Carlos coletou fundos, juntou trabalhadores escravos e livres, artesãos e no ano seguinte começou a obra, encomendando uma nova imagem no Rio de Janeiro. A Igreja foi concluída com muita rapidez, embora logo tenha sofrido avarias, sendo reformada e ampliada, abolindo-se as torres laterais do desenho original. A construção da bela igreja mais uma vez movimentou os caminhos da região: o adro foi feito de pedras trazidas do Coxipó em lombo de burro, o principal artesão pintor e dourador veio de Goiás, foram trazidos azulejos portugueses pintados à mão e segundo se diz, pesados balaústres de jacarandá vieram da Bahia no lombo de burros. Outro importante legado foi a consolidação do local da igreja como núcleo do centro urbano, que até então era provavelmente uma passagem na beira do caminho para Goiás. Na justificativa para a mudança está, sobretudo, a presença de materiais como madeira das florestas circundantes e barro retirado da área ocupada hoje pela praça central da cidade. Colaborou também o fato de que a localização da antiga missão, hoje o bairro Aldeia Velha, é praticamente um grande brejo, com veredas e buritizais por todos os lados. O nome ‘vereda’, um campo úmido, é também referido como caminho e passagem. Está claro que, para os antigos, florestas mais densas eram opressivas e eles preferiam o campo aberto e o cerrado, onde há o conforto e segurança do domínio visual. O que eles provavelmente não contavam era a excessiva umidade, como a água que ainda hoje mina em diversos quintais do bairro.

Tal fato intensificou o uso, entre outras, da atual Trilha do Matão, que corta a Serra do Uatman conectando a Serra da Russa – ou Ruça? – e a região do Morro São Jerônimo diretamente com o centro urbano, cortando caminho. Evitava-se assim a necessidade de se passar pela fazenda Buriti e pela antiga missão/aldeamento. Além disso, a descoberta de faixas de terra fértil do Vale do Jamacá e na parte alta do Ribeirão Lagoinha ajudou a deslocar a ocupação da Chapada para o leste.

Novas Atividades, Novos Caminhos

adrien-taunay-palmeiras-buriti adrien-taunay-palmeiras-buritiPor volta de 1800 alguma pouca atividade econômica movimenta os caminhos da região. Sabemos que ao norte da Chapada, no rio Quilombo, afluente do rio da Casca, estabelecem-se modestas lavras diamantíferas. Os caminhos passavam pelas fazendas Buriti e Morro da Laje, mas deve ser desse período o Mutucão, caminho mais a oeste que desviava da parte mais acidentada da serra, passando pelo ribeirão Mutuca e depois pela parte mais alta do Coxipó-Açu.

Certamente, toda a região do atual Parque Nacional, que compreende parte da Serra do Quebra-Gamela e cabeceiras dos atuais Rio Claro, Paciência e Salgadeira já haviam sido revirados pelos garimpeiros. Portanto, o caminho da Bocaina do Inferno, atual MT-251, asfaltada em 1974 pelo governador Garcia Neto, já existia em traçado semelhante e, para além da própria Salgadeira, subia a serra passando pelo Portão do Inferno e a então ‘Bocaina do Inferno’, atual cachoeira Véu-de-Noiva. Nunca conseguimos maiores informações sobre a atual Salgadeira, mas não temos dúvida que este ponto estrategicamente localizado foi um “saladeiro”, isto é, local de abate de gado, manteamento e salgador de carne. Em meio à Serra do Quebra-Gamela, muito acidentada, havia uma rede de caminhos, como descidas da Mata Fria/Córrego Congonhas, e para quem vinha do sul, a Trilha Mãe do Vento. Até a década de 70, antigos moradores do pé da serra a usavam para fazer roças, caçar, etc. Nas proximidades há sítios arqueológicos com linguagem que lembra culturas mais recentes, que poderiam ser de Boróros ou Bakairis, por exemplo. Infelizmente, além do pouco estudo, já há muita depredação.

Outra modesta atividade econômica que movimentou os caminhos no início do século XIX foi a exploração de espécies de Quina, planta usada para combater a malária. Com a progressiva penetração em direção ao norte e à Amazônia, a demanda aumentava mas nunca chegou a se configurar como um ciclo econômico consistente. Outros produtos que chegaram a mobilizar mais gente e recursos, como o gado, a poaia, a cana-de-açúcar e a borracha tiveram localização geográfica mais afastada e parecem ter pouco influenciado o movimento da Chapada.

Francisco de Paula Magessi teve uma curta passagem como Capitão General da capitania, assumindo o posto em julho de 1819 e sendo deposto em 1821. Temos motivos para acreditar que este rígido militar português ao menos iniciou a construção deste caminho. Notamos que entre as muitas trilhas, poucas eram as estradas que subiam a serra. Quase todo o transporte era com burros e bois carregando bruacas de couro ‘ajojadas’, isto é, pares de bolsas equilibradas no lombo dos animais. A abertura de estradas em serras íngremes como a Chapada demandava investimentos bem maiores em mão-de-obra e tecnologia. Estas estradas receberam o nome de “reúnas”, um bem de uso coletivo cujo fluxo não podia ser impedido por particulares. Quase sempre eram os próprios viajantes que faziam a manutenção com grande simplicidade e conhecimento. O principal fator de degradação destes caminhos sempre foram as chuvas torrenciais e as conseqüentes enxurradas. Os antigos sabiam dialogar com o relevo e não economizavam nas sinuosidades a fim de diminuir ao máximo as declividades e escoar a água dos caminhos, não permitindo seu acúmulo em enxurradas.

A Expedição Langsdorff

langsdorff langsdorffA Chapada continuou mergulhada em decadência, registrada em 1827 pela Expedição Langsdorff, com seus dois desenhistas, Aime-Adrièn Taunay e Hercules Florence, que muito provavelmente subiram pela Trilha do Carretão ou pela Estrada do Magessi. No caminho serra acima, Florence conta em seu diário Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas:

“Cinco vezes passamos um córrego encachoeirado que faz muitas voltas na fralda da montanha e, ao aproximarmo-nos da chapada que a coroa, ouvimos o ruído da terra que ele dá numa garganta, queda de uns 50 pés de altura, mas oculta pela densa vegetação que cobre as dobras de toda a serra. No alto, a perspectiva é magnífica. ..e bem junto de nós, à esquerda, alteia-se sobranceiro o Morro São Jerônimo.”

langsdorff-taunay-quilombo langsdorff-taunay-quilombo Estaria se referindo à Cachoeira do Aricazinho? As cinco passagens pelo córrego relatadas não deixam dúvida que estavam na bocaina do Aricazinho. Florence e Taunay seguiram para a Fazenda Buriti, onde se hospedaram. Passaram dias perambulando pela região e subiram o São Jerônimo, desenhando e pintando aquarelas. Várias localidades retratadas são perfeitamente reconhecíveis. Descrevem entre outros a Casa de Pedra e o Véu-de-Noiva, que muito os impressionou. Com relação à atual Trilha do Magessi, não temos dúvida que um dia foi estrada carroçável, com a presença ainda hoje de trechos remanescentes de muros de arrimo de pedra.

langsdorff-desenho-hercules-florence langsdorff-desenho-hercules-florenceFlorence visita o atual centro urbano e não podemos deixar de mencionar seu comentário à Igreja de Santana:

“A acanhada igreja nada apresenta de notável no exterior, interiormente, porém, se bem decadente, é, guardadas as proporções, a mais rica de toda a província em ornamentos e baixos relevos dourados. Ninguém pensa, por certo, encontrar tais restos de riqueza numa decadente aldeia da província de Mato Grosso”.

Os desenhistas também deram grande contribuição retratando alguns moradores locais, muito antes que a fotografia pudesse apreender e registrar estes tipos que ainda hoje podemos apreciar.

A Guerra do Paraguai

guerra-do-paraguai guerra-do-paraguai guerra-do-paraguai A Chapada continuava estagnada. Apenas a Guerra do Paraguai, entre 1864-70 trouxe agitação ao local. O temor de que o exército paraguaio subisse o rio para atacar Cuiabá nunca se confirmou. Por outro lado, os próprios soldados brasileiros que abandonaram Corumbá fugindo para Cuiabá trouxeram consigo a peste da varíola, que matou grande parte da população. Chapada, mais uma vez, destacou-se como fornecedor de mantimentos, já que tinha diversas fazendas e alguns engenhos tocados com mão-de-obra escrava. Tanto que, por volta de 1870, havia alguns quilombos, em especial ao norte, na região do Rio Manso. guerra-do-paraguai
O maior deles foi o Cansanção, que reunia negros, mestiços, indígenas e mesmo homens livres marginalizados. Foi um momento em que novos caminhos se estabeleceram para escoar a produção das fazendas, mas também para freqüentes ataques e saques, como relatado em documentos da época.

Rondon e o Telégrafo

marechal-rondon-telegrafo marechal-rondon-telegrafo rondonChapada não parece ter tido grande participação nem no episódio da Independência, nem na Proclamação da República. Logo após esta última, em 1890, após mais de oito anos de ausência de seu estado natal, chega a Cuiabá o jovem engenheiro militar Cândido Mariano Rondon. Fora convocado como 1º ajudante pelo Major Gomes Carneiro, chefe da Comissão Construtora das Linhas Telegráficas de Cuiabá ao Araguaia. A obra foi concluída no ano seguinte e muito provavelmente correu a planície margeando o pé da serra, até subir pelo Morro da Rancharia e chegar ao alto passando muito próxima da Caverna Aroe Jari e Lagoa Azul. Na época, havia pequenas comunidades abaixo, como a do Formoso e Aricá-Açu. Ele muito bem pode ter utilizado um caminho já existente de ligação com o Rio das Mortes. Dizem que Rondon errou o caminho e abandonou a linha, cujos postes ainda se encontravam no local até poucos anos. Rondon continuou na região realizando estudos e o fato é que reconstruiu a linha entre 1894 e 1898. Muito possivelmente, desta vez deixou os caminhos da Chapada para trás, preferindo subir pela Serra de São Vicente. O fato é que a obra mais uma vez ativou o fluxo em caminhos da Chapada. Devemos observar que há outro caminho na Chapada conhecido como Estrada do Telégrafo, subindo das proximidades da comunidade Arraial dos Médicos para a Serra da Russa. rondon
Ainda há alguns postes e várias dúvidas no local. Não sabemos se o caminho, que sobe pelo campo no divisor de águas e que foi de transmissão de eletricidade indo em direção ao Buriti, chegou um dia a ser de fato uma linha telegráfica. Talvez fosse apenas um ramal. É interessante notar que quando analisamos o traçado dos caminhos históricos sobre um mapa, logo percebemos que a maioria tende a ter os mais curtos percursos para fazer as conexões a que se propõe, sempre procurando alternativas para vencer as barreiras topográficas.

O Tope de Fita

tope-de-fita-bike tope-de-fita-bike Desta forma, sendo a Fazenda Buriti Monjolinho o primeiro destino no alto da serra, os primeiros caminhos e viajantes buscavam um traçado o mais reto e curto possível, desde que a topografia o permitisse. Nesse sentido há uma grande diferença entre trilha e estrada, pois como assinalado acima, uma trilha é muito mais simples e fácil de fazer. Nelas, contava-se com o trabalho de mulas, muito mais resistentes que cavalos. Com o tempo e o aumento do fluxo de cargas, tornou se cada vez mais necessária a construção de estradas para passagem de carros de boi, charretes, carroças, etc. A chegada do primeiro automóvel em Cuiabá, em 1911, representou, de certa forma, um duro golpe para as trilhas. Logo o uso de automóveis se popularizou, chegaram os caminhões e os velhos meios começaram a ser abandonados. Se analisarmos especificamente a atual MT-251, veremos que ela dá uma grande volta em torno da Serra do Quebra-Gamela e totaliza 61km, quando a distância direta entre Cuiabá e Chapada é cerca da metade. Este encurtamento foi durante muito tempo um trunfo dos antigos caminhos.

Assim, em 1910 o governador Pedro Celestino nomeia Virgílio Correa Filho como engenheiro chefe da construção da Estrada Tope de Fita, até então Caminho da Bocaina. Para torná-la carroçável, foi feita uma grande obra, com cortes de barranco, muros de arrimo, regos de escoamento e contenção de enxurradas, calçamento, etc. A obra consumiu grandes somas e antes de sua conclusão, Pedro Celestino chamou Virgílio Correa pedindo modificações a fim de barateá-la. Virgílio não se conformou em abrir mão de seu projeto inicial e abandonou a obra, que foi terminada por seus auxiliares. Curiosamente, Virgílio Correa acabou se tornandou um dos maiores historiadores de Mato Grosso. Só não sabemos ao certo até hoje o significado do nome Tope de Fita, mas uma hipótese é que foi inaugurado e freqüentado pela nata da sociedade local, entre elas damas com ricas vestimentas e adereços diversos como fitas coloridas que impressionaram os moradores ao longo do trajeto, pessoas muito simples.

O fato do Tope de Fita ter um traçado relativamente curto e declividades moderadas, considerando o grande desnível da região, ensejou um movimento na década de 70 para sua reforma. Na ocasião, alguns veículos desceram a serra formando uma comitiva, que não comoveu o então governador José Fragelli. Infelizmente, a estrada continua no mais desolador abandono, agravado quando, no final dos anos 90, virou pista de motocross, assim como boa parte das outras trilhas históricas, inclusive no interior do Parque Nacional.

A Usina do Casca

usina do casca I usina do casca I Em 1928, foi inaugurada a Usina Hidroelétrica do Rio da Casca, no governo de Mário Correa da Costa, a primeira de Mato Grosso, fornecendo energia elétrica para Cuiabá. Mais uma vez, o fluxo de gente se intensificava pelos caminhos da serra, pois além de guarda-linhas que as percorriam regularmente, foram trazidos diversos funcionários, inclusive estrangeiros, dada a escassez de mão-de-obra especializada no local. Não satisfeito, em 1929 Mário Correa construiu próximo à usina a Casa dos Governadores, que foi efetivamente usada por alguns de seus sucessores e existe ainda hoje. Sonhador, tentou mudar a capital para serra acima e construir um trem para a região do Ribeirão Lagoinha. É de se notar que na época já existia o famoso Engenho do Abrilongo, que usava principalmente a Estrada Manuel Antônio para escoar sua produção. Chapada ficou famosa como grande fornecedor de café para Cuiabá.Casca II

Casca IIA usina teve sua capacidade duplicada em 1941. As usinas Casca II e Casca III foram inauguradas respectivamente em 1960 e 1971, e a antiga linha de transmissão acabou tendo seu traçado modificado, passando pelo Assentado do Xavier.

Esse platô intermediário é servido com duas trilhas serra acima: a dos Farinheiros, e outra mais ao leste, com uma incrível escadaria entalhada na pedra. Hoje, ambas estão fechadas para visitação e alguns se aventuram por elas escondidos, sobretudo a primeira, para acessar a maravilhosa Cachoeira da Bailarina, que no período das águas tomba de seus mais de 100 metros para cair numa delicada praia e formar um poço. Conforme apuramos - e ao contrário de nossa suposição inicial - ao que tudo indica o local não era habitado por ninguém com o nome de Xavier, mas este é o nome do formador do Rio das Pedras, no pé da serra.

Os 'Revoltosos'

coluna-prestes coluna-prestes coluna-prestes Em 1927 Chapada recebeu uma visita ilustre que mais uma vez movimentou seus caminhos: trata-se da Coluna Prestes, conhecida na região como os ‘Revoltosos’. Após percorrer mais de 20.000km colecionando vitórias sobre as tropas governamentais, ainda sob liderança de Luís Carlos Prestes, a coluna chegou à Chapada bastante combalida.

Em seus últimos dias e já se retirando para a Bolívia onde iria se dispersar no mesmo ano, não contava com a simpatia da população, ao menos nos relatos por nós ouvidos. Conta-se que um de seus acampamentos foi na Casa de Pedra, mas não conseguimos nenhuma prova documental, apenas relatos indiretos. De qualquer forma, a Coluna Prestes foi um dos eventos político-militares mais importantes ocorridos na primeira metade do século XX no Brasil, combatendo velhas oligarquias e pavimentando o caminho da Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder. Getúlio sim causou sensação no estado, nomeando um interventor que fixou limites para a exploração da mão-de-obra pelos coronéis locais, conquistando a simpatia do povo. coluna-prestes

Diamantes, Parques e Cavalgadas

No período de entreguerras, um novo fenômeno sacudiu a Chapada: a descoberta de diamantes. É interessante notar que tanto na serra acima como na serra abaixo a cultura mineradora é muito forte. A diferença é justamente os diamantes da serra acima. Depois das antigas lavras no Rio Quilombo – retratadas por Taunay e Florence em 1827 -, uma febre de garimpos tomou então conta da Chapada por pelo menos trinta anos, em especial nos formadores do Rio da Casca, mais ao norte do município. garimpogarimpo É nesse tempo que Água Fria e Cachoeira Rica/Peba viram sua população se multiplicar bruscamente. Os caminhos e os fluxos também se multiplicaram e vários se tornaram estradas de rodagem, tipicamente de “areião”, que tantas agruras impuseram e ainda impõem aos passantes.

A histórica ligação da Chapada com a Baixada Cuiabana é tão forte que, mesmo estando serra acima, culturalmente a Chapada pertence antes a serra abaixo. Portanto, Chapada é uma contradição geográfico-cultural, pois pertence à Baixada Cuiabana. Os antigos moradores têm o mesmo sotaque, praticamente os mesmos costumes, o mesmo gosto pelo garimpo, pela pecuária. Isso ficou muito mais evidente quando, na década de 70, a cultura da soja chegou com “tonalidades sulistas” (basta ir à vizinha Campo Verde para mudar de universo cultural). A grande diferença é que Chapada está para o diamante como Cuiabá está para o Ouro. Numa, está a “Mãe do Ouro”, noutra, a “Mãe do Diamante”, ambas guiando em direção à riqueza.

Não por nada, em 1941, José de Mesquita escreve o ensaio ‘A Chapada Cuiabana’. Nele, nomeia 14 caminhos que ligam serra abaixo serra acima, alguns dos quais até hoje não encontramos: Portão (Bocaina)do Inferno, Quebra-Gamela, Carretão, Magessi, Ruça(Russa?), Bocaina (Tope de Fita), Xavier (farinheiros), Assentado, Manuel Antônio, Serrinha, Capitão Agostinho, Ranchão, São Vicente e Cupim. Hoje conhecemos mais caminhos, em geral trilhas pouco usadas.

cavalgadaEm 1989 foi criado o Parque Nacional de Chapada dos Guimarães. Diversas trilhas ficaram em seu interior, integralmente ou em parte. Uma trilha que nunca conseguimos encontrar sobe das cabeceiras do ribeirão Mutuca, onde atualmente a Sadia tem um plantio de eucaliptos, para a Fazenda Chafariz. Mas há várias outras. Algumas praticamente desapareceram tomadas pela vegetação, como a Quebra-Gamela, outras estão ativas, como o Carretão.
cavalgada Uma das medidas tomadas pelo Parque foi a proibição de animais exóticos em seu interior. Naturalmente, isto se confronta com a tradição do uso de tropas, embora tal já tivesse praticamente desaparecido na época de sua criação. A grande perda foi para a Cavalgada do Divino, de cunho religioso, que ainda hoje todo mês de Maio sai do centro urbano da Chapada descendo ao vilarejo Coxipó do Ouro, onde teria sido rezada a primeira missa de Mato Grosso. Do vizinho Arraial dos Freitas saiu o Sr. Cipriano de Freitas para se estabelecer serra acima, como ele mesmo conta no documentário poucas semanas antes de falecer. Nas últimas vezes que vimos a cavalgada, a verdade é que contava com poucos cavaleiros e tinha perdido bastante de seu espírito de devoção.

cavalgadacavalgada

Merece menção o trabalho do Sr. Jurandir Spinelli, que como criador, proprietário local e presidente da ACRIMAT – Associação dos Criadores de Mato Grosso, em 1993 organizou a primeira Cavalgada Tope de Fita, de Cuiabá à Chapada dos Guimarães. Foi um grande sucesso que chegou a participação de algumas centenas de cavaleiros. No ano seguinte, como parte da cavalgada foi publicado o excelente trabalho do historiador Carlos Alberto Rosa, ‘Esbarro no Hoje, Recuo no Tempo, Galope na História’. Nos anos seguintes, a cavalgada começou a usar outras trilhas históricas, evento que era precedido por uma limpeza e manutenção nas mesmas, constituindo-se num verdadeiro resgate histórico. Foi assim que tivemos a rara oportunidade de conhecer a Estrada Manuel Antônio, embora tenhamos percebido que alguns cavaleiros pouco compreenderam a proposta e tenham se desvirtuado em farra e alcoolismo, sem com isso diminuir o valor do evento.

Este trabalho é também uma homenagem ao Sr. Jurandir Spinelli, que muito nos inspirou. O fato de ser um nome muito respeitado e com livre trânsito entre fazendeiros, políticos e antigos coronéis da região permitiu que muitas porteiras e cadeados fossem abertos e caminhos há muito abandonados fossem retomados.

O Ecoturismo em Chapada

No final dos anos 90 começamos a usar essas trilhas para turismo, pois ficamos ao mesmo tempo encantados com sua beleza e tristes com seu abandono. Em 1998 constituímos nossa associação local de guias e condutores e nesse mesmo ano fizemos um curso de formação de Guia de Turismo Regional. Para nós que tínhamos começado a guiar profissionalmente cerca de dois anos antes, foi um marco divisório, um grande estímulo. Nós que havíamos militado na luta ambiental vimos a possibilidade de permanecer próximos à natureza e ganhar honestamente nosso sustento. Foi quando caiu a ficha do ecoturismo que, ainda hoje, se nos apresenta como a grande solução por conjugar preservação ambiental, manejo de visitação sustentável, valorização da cultura local, geração de renda na comunidade, educação ambiental e atividades saudáveis, não-poluentes, como caminhadas, passeios ciclísticos, etc.

cachoeira cachoeira

Se Carlos Drummond escreveu: “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”, quando usei o poema para me queixar ao ex-secretário de turismo e cultura local Daniel Pellegrin, ele de pronto emendou: “no meio do caminho tinha uma cerca, tinha uma cerca no meio do caminho”. Referia-se ao mesmo problema: cercas, porteiras e cadeados. Desta forma, vários caminhos só conhecemos entrando escondidos e, contra nossa vontade, tivemos que pular muitas cercas e porteiras trancafiadas. Mas sempre o fizemos com o máximo respeito, sem jamais mexer no alheio nem deixando animais escaparem. Para nós, no campo, porteira ou colchete fechados permanecem fechados, seja na propriedade de um rico fazendeiro, seja na de um simples chacareiro ou sitiante. Nós sabemos o trabalho que dá procurar e recolher um animal extraviado e o fato de pleitearmos a livre passagem nestes caminhos está intimamente ligado ao respeito pelas propriedades e sua rotina.

Como um dos pilares do ecoturismo é a cultura local, sempre buscamos valorizá-la e ajudar a resgatá-la, e ao mesmo tempo gerar renda nas comunidades. Desta forma buscamos parcerias em locais como a Comunidade São Jerônimo, que já tinha uma associação organizada e um casarão histórico como sede. Levamos muitos turistas para pernoitar lá, encomendando refeições à base de comidas típicas produzidas no local: queijos, doces, farinha, bolo de arroz no forno à lenha, paçoca de pilão, farofa de banana, etc. Estimulamos a comercialização de artesanato local, como pás e peneiras, gamelas, pilões e violas de cocho, etc. Durante anos fizemos uma profícua parceria com ‘seu’ Romualdo, tocador e produtor de viola de cocho no Urubamba. Compramos e estimulamos também a produção se sua esposa ‘dona’ Juraci, redeira e tecelã e vários outros. Levamos para lá o programa Terra da Gente para divulgar os valores locais, entre elas um grupo de dança de Siriri e Cururu. Organizamos uma “comitiva” serra abaixo para participar da Festa de São Benedito, onde os mais velhos dançaram a Dança de São Gonçalo, alguns pela última vez. Nos anos seguintes, reparamos na tendência para o uso de som mecânico em substituição aos músicos e seus instrumentos típicos como a viola de cocho, o mocho e o ganzá. Nessa época, o Parque Nacional era ainda pouco mais que um pedaço de papel, não havia manejo de visitação e muito menos o conceito de sustentabilidade que hoje muito nos alegra ver implantado.

O Documentário

Por volta de 2006, ao ver o rápido processo de decadência da cultura local, a morte de diversos moradores que na tradição oral representavam uma memória viva, a degradação das trilhas, o abandono e crescente cerceamento dos acessos por proprietários, resolvemos gravar depoimentos na fonte. Saímos caminhando no pé da serra, do Coxipó do Ouro em direção ao leste, passando pelas antigas comunidades. Colhemos horas de material e resolvemos editar. Tivemos apoios, mas uma forte resistência com relação à edição final. Não foi fácil convencer alguns parceiros a manter um documentário com tão longa duração, na verdade, pouco mais de duas horas divididas em duas partes. As alegações de que era muito longo e cansativo, que quase ninguém teria ‘saco’ para assistir tudo, jamais nos demoveram, e, muito antes, estamos arrependidos de não termos entrevistado mais gente e aumentado o conteúdo. Afinal, nunca nos propusemos a produzir material de entretenimento, mas sim um documento histórico, uma prova cabal da imemorialidade destas trilhas. Em nenhum momento, nenhum dos antigos moradores soube dizer que algum destes caminhos foi aberto por fulano ou beltrano. Portanto, acreditamos piamente que estes caminhos são um patrimônio coletivo que pertence à comunidade e à sociedade em geral. Além de patrimônio material, é também parte da memória coletiva, tão importante quanto, e não vejo por que não ser valorado também economicamente.

Os antigos moradores do pé da serra com os quais conversamos neste documentário tiveram sua juventude nesta época, isto é, entre as duas grandes guerras mundiais. Percebemos que, com exceção de um, eles não se envolveram diretamente, mas relatam uso intenso dos caminhos, estando mais ligados à prática da agricultura. Para nossa surpresa, constatamos que muitos moradores subiam para fazer roças no alto da serra na região do Olho d’Água, hoje fundo do Bairro São Sebastião; no Alto Jamacá, entãoCapão de Forca; no Capão do Boi; Cajuru, cabeceiras do Capão Seco; Bugres; Ribeirão Glória; Lagoinha; etc. Apuramos que Chapada era excelente produtor de feijão, milho, café e cachaça, enquanto o pé da serra era grande produtor de farinha.

O material coletado entusiasmou o então secretário municipal de cultura, turismo e meio ambiente Daniel Pellegrin e sua esposa Emily. Daniel, um homem antenado em novas tecnologias, me apresentou o então recém lançado no Brasil programa GoogleEarth. Quando o vi pela primeira vez, fiquei pasmo e imediatamente lhe propus que me ajudasse a traçar sobre os mapas os diversos caminhos históricos que eu estava pesquisando. Omiti apenas os diversos sítios arqueológicos – um tesouro à parte - pois ao ver as depredações, sempre achei que o melhor fosse guardá-los em segredo. Hoje penso diferente, talvez seja o momento de iniciarmos o manejo sustentável da visitação de alguns deles. Afinal, acredito que este conjunto de tesouros pode tocar as pessoas e conquistá-las como aliadas para sua valoração e preservação. A experiência de passar nestes caminhos e visitar certos locais e paisagens é muito tocante e pode ser transformadora.

Daniel encaminhou os mapas com os caminhos para o então secretário estadual de cultura Paulo Pitaluga. Trata-se de um profícuo historiador que já nos contemplou com diversas obras sobre a história regional, também pesquisadas para compor este texto. Por obra e graça de sua sensibilidade e influência política, finalmente, em 15 abril de 2009 o Diário Oficial de Mato Grosso publicou a Portaria Nº 007/SEC/2009 que “dispõe sobre o Tombamento para o Patrimônio Histórico e Artístico estadual dos bens materiais e naturais, monumentos históricos, naturais e paisagísticos das Trilha da Mata Fria, Trilha Tope de Fita, Trilha do Matão, Trilha do Carretão, Trilha do Magessi, Trilha Quebra-Gamela e Trilha do Xavier - fazenda do prof. Aecim Tocantins”.

Entre outros, ficou de fora a antiga estrada Manuel Antônio, acreditamos que para não “empatar” uma nova rodovia que o governo do estado pretende construir para o escoamento de grãos.

Após breve descrição das trilhas, a portaria resolve no parágrafo 2º do artigo 1º que “a presente portaria implica no tombamento dos bens históricos inseridos no perímetro acima citado e passam a ser tutelados pela proteção especial do Poder Público estadual que velará para que os efeitos previstos por normas disciplinadoras sejam devidamente respeitados”. E segue dizendo que “O bem tombado fica sujeito à vigilância da Secretaria de estado de Cultura”, etc. No artigo 2º, continua dizendo que “...ficando portanto o registro de sua significação histórica e artística para a comunidade e a memória mato-grossense".

Tudo muito bonito, mas até hoje, não temos notícia de que tenha saído do papel. Tudo bem, pois o Parque Nacional também foi de papel durante anos e hoje, mesmo em meio a muitos problemas, tem sua criação mais que justificada e poderia ser bem maior não fossem algumas ‘malandragens’.

Esperamos que gostem do documentário e, mais ainda, que todos conheçam as trilhas, que as apreciem, que os caminhos fechados sejam reabertos e recebam a manutenção e o valor que merecem. Que frutifiquem.

Noam, Chapada dos Guimarães, abril de 2017.

Bibliografia:

  • Esbarro no Hoje, Recuo no Tempo, Galope na História. Carlos Rosa, 1994.
  • Cuiabá: Rio, Porto, Cidade. Maria de Fátima Costa e Paulo Diener 2000.
  • Caminhos Históricos de Mato Grosso, Período Colonial. Paulo Pitaluga e Moacyr Freitas. 2000.
  • História de Mato Grosso, da Ancestralidade aos Dias Atuais. Elizabeth Madureira. 2002.
  • Relatos Sertanistas. Afonso de Taunay. Edição de 1976.
  • Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a1829. Hércules Florence. Edição 2007.
  • Diversidade Sociocultural em Mato Grosso. Maria Fátima Roberto. 2008.
  • História de Mato Grosso, Virgílio Correa Filho. Ano?
  • A Igreja de Santana. Carlos Francisco Moura. Ano?
  • A Chapada Cuiabana – Seu Passado – Seu Presente – As Possibilidades de seu futuro. Ensaio. José de Mesquita. 1941.
  • Diário Oficial do estado de Mato Grosso. 2009.
  • Paisagens de Rondon, catálogo da exposição. Mário Friedlander, João Antônio Botelho, Eduardo Espíndola, Viviene Lozi.


NOAM SALZSTEIN é natural de São Paulo e vive em Chapada dos Guimarães desde 1990. Apaixonado pela natureza e pela cultura local, durante anos percorreu toda a região colhendo novos conhecimentos. Versado em plantas do cerrado, fauna nativa e observação de aves, vive no Vale do Jamacá e trabalha como guia de natureza em Chapada dos Guimarães e Pantanal MATO-GROSSENSE guiando turistas do Brasil e exterior.